450 km por Quem Não Pode
- Blog Bolsa do Voluntariado

- 19 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Há viagens que não começam na estrada.... Começam no coração. A minha começou quando percebi que a Maratona de Lisboa e a do Porto estavam separadas por apenas sete dias. E isso fez-me pensar: e se eu ligasse a partida de Lisboa à chegada no Porto… a correr?
Uma ideia maluca, apenas mais uma no meu caso. Mas esta ideia só ganhou vida quando encontrei um “porquê” maior. Correr pela APPACDM de Setúbal e pelo Centro Miguel Simas, um projeto que vai oferecer a pessoas com deficiência intelectual um lar digno, próximo da família, cheio de amor, cuidado e esperança.
Tomei conhecimento desta instituição e das suas necessidades financeiras através do meu trabalho como técnico de análises, e soube naquele momento que era o motivo perfeito para me levar ao limite.
Foi aí que nasceu o lema que me acompanhou em cada quilómetro: - Correr por quem não pode.
Mas correr por quem não pode, não somente por quem não pode correr. É por quem não pode fisicamente, e por quem, emocionalmente, já se sente demasiado exausto para continuar. Por quem não tem a escolha de parar, descansar ou recomeçar. Eu correria por todos eles.
Setuvens – Eu Também Vou: Juntos vamos mais longe
Antes sequer de dar o primeiro passo, senti que esta aventura não era só minha. Era de todos os que acreditam no poder da superação, na força da empatia e naquele desejo quase infantil, mas tão humano, de acreditar que os sonhos podem transformar o mundo
Foi assim que criei o movimento :Setuvens – Eu Também Vou. Um convite aberto. Um chamamento. Um “se eu posso tentar, tu também podes”. O Setuvens nasceu para mostrar que a corrida pode ser muito mais do que desporto. Pode ser ferramenta de impacto social, ponte entre pessoas, faísca que acende coragem nos outros. Quero inspirar quem me vê a fazer mais por si e pelo próximo e acreditar que cada passo conta, mesmo quando parece pequeno.

450 km, 9 dias, sozinho – mas nunca verdadeiramente sozinho
A viagem em si foi crua e intensa. Corri os 450 kms completamente sozinho, sem apoio logístico. Era apenas eu, a estrada e o meu atrelado, a correr com o peso da missão e a responsabilidade de honrar quem me seguia.
Realizei esta viagem na busca da bondade nas pessoas, daí ter ido sozinho, e posso dizer que as pessoas não me desiludiram.
Fui acolhido por amigos, desconhecidos, pelos bombeiros voluntários de santarém, pela albergaria pinheiros, pela diretora do Lar de São Silvestre de Coimbra, por desconhecidos que me encontraram na estrada e fizeram questão de me acompanhar por alguns kms, ou por pessoas que iam parando a perguntar se estava tudo bem.
Este caminho, por muito que estivesse só, nunca me senti sozinho.
Do dia 25/10 a 02/11 de 2025, liguei a Maratona de Lisboa até à Maratona do Porto a correr. 9 dias na estrada começando na Maratona de Lisboa e passando/parando por Santarém, Entroncamento, Alvaiázere, Coimbra, Estarreja, Espinho e Porto, finalizando na Maratona do Porto.

No 1º dia, realizamos a maratona de Lisboa, e embora parecesse apenas mais uma maratona, para mim foi muito mais do que isso. Foi o primeiro passo de 450 km. Foi ali, no meio da multidão, que senti o peso da missão e a leveza do sonho.
No 2º dia, corremos desde o Terreiro do Paço até ao Cartaxo. O objetivo era ir até Santarém, mas as estradas eram escuras e perigosas durante a noite, estava sozinho, e tive de escolher entre a teimosia e a prudência.... Apanhei um Uber até Santarém onde os Bombeiros Voluntários me acolheram com a generosidade típica de quem entende o valor da missão.

No 3º dia, voltámos ao Cartaxo para retomar a estrada até ao Entroncamento. Foi, sem dúvida, o dia mais duro mentalmente. Horas e horas sozinho, no meio dos campos, do Vale da Figueira à Golegã. Só eu e a estrada, e uma solidão tão densa que parecia ter peso próprio. Aqueles quilómetros ensinaram-me que a mente é, muitas vezes, o maior adversário, e vencê-la é parte do caminho.
No 4.º dia, fomos em direção a Alvaiázere, e foi o começo dos nossos problemas. A serra de Alvaiázere recebeu-me com chuva torrencial e trovoadas tão próximas que parecia que o céu estava a desabar mesmo ao meu lado. Corri durante horas ao frio e á chuva. Foi ali que começou uma das canelite que me perseguiu até ao último quilómetro. Dores profundas, incapacitantes, que me obrigavam a lutar comigo mesmo a cada passo. Foram essas mesmas dores que me fizeram duvidar do meu propósito e pensar em desistir. Mas, no fim desse dia duro, encontramos abrigo na Albergaria Pinheiros, onde pude finalmente respirar.
O 5º dia, foi feito quase todo a caminhar. Estávamos com as dores na canela, com a roupa encharcada do temporal do dia anterior, e não via maneira de conseguir chegar a Coimbra. Quando cheguei a Ansião, parei na Physiogo, uma clínica de fisioterapia, e fui atendido pelo Gonçalo e pela Marta, e num gesto que ainda hoje acredito ser obra de Deus, aliviaram as minhas dores e devolveram-me a esperança... Ao cair da noite, chegámos a Condeixa-a-Nova. A minha mãe juntou-se a nós para os últimos 15 km, levando o meu atrelado para casa, para que o dia seguinte, com 80 km planeados, fosse, no mínimo, possível. Não foi apenas ajuda. Foi amor a empurrar-me pela estrada.
O momento mais duro chegou no 6.º dia.
Quando a caminho de Estarreja, sentei-me à beira da estrada nacional 1, encostado a um poste, exausto, a tremer, com lágrimas encostadas ao canto dos olhos. As lágrimas acumulavam-se nos cantos dos olhos, e dentro de mim algo sussurrava:
“Acabou. Já deste tudo
Mas depois veio aquele pensamento que me reergue sempre:
Eu posso parar. Eu posso descansar. Há muitos que não têm essa escolha. Por isso enquanto eu puder correr. Eu corro.
Levantei-me. Reergui-me. E continuei..
Nesse dia, a canela da perna direita começou a atacar, e estava com dores nas duas canelas. Decidi assim cortar o trajeto e parar em Albergaria a velha para me salvaguardar.
No 7º dia, voltamos a correr á chuva. Mas ao contrário de Alvaiázere, esta chuva trouxe-me alegria e satisfação. O frio reduziu a inflamação das canelas, e os quilómetros até Espinho tornaram-se surpreendentemente mais leves. Pela primeira vez em vários dias, senti-me a avançar sem lutar contra o corpo.
E ainda bem. Porque no 8.º dia, quando cruzei a Ponte da Arrábida, foi como se o mundo abrisse os braços para me receber. O Porto abriu-se diante de mim com uma força emocional que me atravessou por completo. Ali, suspenso sobre o Douro, senti tudo: alegria, pertença, superação, sentido, completude. Senti que estava exatamente onde devia estar. Ainda hoje a pensar nesse momento me vêm as lágrimas aos olhos. Ver ali, naquela ponte, todo o progresso que tinha alcançado. Foram 410 km até aquele momento. 410 km de dor, luta, fé e resiliência. E ali, naquela ponte, tudo fez sentido.
Todo um sentimento de dever cumprido. Como não chorar com isso?
Nesse mesmo dia, juntei-me ao Can Run Club para correr ainda mais 5 km. Porque quando o coração está cheio, as pernas encontram mais força.
O último dia foi a Maratona do Porto, mas para mim, foi muito mais do que isso. Foi a primeira maratona da minha mãe, exatamente um ano depois de me ter visto correr a mesma prova e ter sonhado: “Um dia, eu também vou.”
Corremos lado a lado. Filho e mãe, sonho e inspiração, começo e continuidade.
Foi impossível não me emocionar, cumprir os 450 km pela causa e ajudar a minha mãe a cumprir o maior marco desportivo da vida dela. Naquele dia, fomos prova viva de que quando alguém acredita em ti… tudo muda.

O impacto — dentro e fora
Ao longo dos 9 dias, a corrente humana que se formou à volta da causa foi tão forte quanto os meus passos. Conseguimos juntar 1.455€ em donativos, cada euro carregado de fé, suporte e carinho. Cada donativo foi um “eu acredito em ti”, um “eu também vou”.
Dentro de mim, algo mudou para sempre. Percebi que o impossível é muitas vezes uma ilusão criada pela nossa mente. O corpo aguenta mais, a alma aguenta mais, e quando corremos por alguém além de nós, ganhamos força que nem sabíamos ter.
Consegui escalar um cume que eu achava inalcançável. 450km em 9 dias. Mais ou menos 50km por dia, sem apoio (agora olho para trás, e sem dúvida foi uma ideia maluca ir completamente sozinho, mas se assim não fosse, não iria presenciar que ainda existe muito humanismo, empatia e bondade no mundo)
Hoje sei: enquanto eu puder correr, eu corro por quem não pode. Por quem luta todos os dias em silêncio. Por quem precisa que alguém acredite por eles.
E o futuro? Voltava a fazer?
Sim. Sem hesitar. Maior e mais longe.
Já sonho com o dobro da distância e o dobro do impacto, porque quando um sonho se partilha, ele deixa de ser de uma só pessoa e passa a ser o movimento de todos nós.
Setuvens – Eu Também Vou continua.
E espero que, quando olhares para esta história, também tu sintas vontade de dar o teu Confidential passo, seja qual for.
Porque às vezes, tudo começa assim: alguém corre… e outra pessoa pensa, baixinho: eu também vou.








Comentários